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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Ao que isto chegou...

Não gosto nada deste tipo de chavões, "ao que isto chegou", "é o país que temos", mas neste momento não me ocorre mais nada.
Bom, até  me ocorre.  Podia citar Charles Dickens, em A Tale of Two Cities e dizer  "It was the best of times, it was the worst of times.". Naturalmente, daria especial ênfase à parte do "worst of times", mas depois haveriam de achar que era uma grandessíssima pedante, a armar ao pingarelho. De qualquer maneira, o que se passou e que aqui deixo em forma de desabafo, não merece Dickens. Por mim, ficará com um "ao que isto chegou".
Nestes últimos dias tenho partilhado no blog episódios que, nada tendo de extraordinário, saem da rotina e por isso lhes dou destaque. Já mais que uma vez recebi comentários do género "mas onde é que andas?", "é no que dá viver em sítios pobres". Tinha para mim que eram episódios pontuais, excepções, que não senhora, moro e trabalho em locais seguros e, em regra, não frequento por zonas problemáticas. Mas hoje sou obrigada a dar a mão á palmatória. Vivo na selva, estou entregue à bicharada.  Ao que isto chegou, senhores leitores!
Pois que no meu prédio há vizinhos com elevado sentido de estética que, suponho (se calhar os motivos são outros, quem sabe, preguiça de ir aos correios, duas portas ao lado, pedi-lo),  não querendo perturbar a linha arquitectónica da fachada, optaram por não colocar nas caixas do correio o autocolante amarelo "publicidade não endereçada, aqui não". Contudo, não gostando também de publicidade não endereçada, suponho também que têm vidas muitíssimo atarefadas que não lhes permite fazer a selecção do correio no recato do lar e optam por fazê-lo no hall do prédio. Por isso, em reunião de condomínio, a maioria dos proprietários decidiu que se adquiriria uma papeleira, onde as pessoas que não querem colocar o tal autocolante, possam deixar os mil e um catálogos que diariamente lhes chegam à caixa de correio. 
Escusado será dizer que nunca a linha arquitectónica do hall do prédio foi tão valorizada. Na verdade, pondero propor à assembleia de condóminos a redenominação e afectação da utilização do hall como galeria de arte . Num prédio onde a limpeza (e consequente esvaziamento da papeleira) é feita duas vezes por semana é maravilhoso dar de caras com semelhante instalação sempre que se entra no prédio. É uma obra colectiva e penso que se chama "papeleira a abarrotar". Devo estar a maçar-vos com este discurso sobre arte. Bem sei, não é assunto para todos. Adiante. 
A minha tristeza, a minha revolta, aquilo que me deixa sem palavras senão "ao que isto chegou", foi constatar que esta semana roubaram a papeleira. Uma papeleira?! Quem é que rouba uma papeleira?! Que gente é esta? Que tempos são estes?
Ao que isto chegou! É o país que temos!




Bom, a condição de galeria de arte mantém-se. A nova instalação chama-se "Amontoado de panfletos publicitários no cantinho junto às caixas de correio".

9 comentários:

  1. Aqui foram os vasos com as plantas da entrada. Uma noite estavam, na manhã seguinte não!
    Puff!
    Tristeza!

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    1. Idem...
      (tentaram roubar a mesa da porteira... mas, como está aparafusada ao chão...)

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    2. A mesa?! E estavam a pensar escondê-la onde? Discretamente, debaixo do sobretudo, enquanto se afastavam a assobiar?
      Pior só o que aconteceu a uma conhecida minha. Quando chegou a casa viu que uma carrinha de mudanças estava a tapar a entrada para a garagem do prédio. Danada foi estacionar o carro ao fundo da rua. Quando saiu do elevador tinha a porta de casa aberta e parte dos electrodomésticos no átrio e ainda os ouviu a descer no outro elevador.. Aparentemente nenhum vizinho estranhou, pensaram que era mesmo uma mudança.

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    3. Aqui não os roubam os vasos porque não temos. Vai uma pessoa pensar que até mora num sítio sossegado...

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  2. A propósito desses autocolantes, eu já desisti. Todos os meses, mais coisa menos coisa, puff! Alguém mos arrancava da caixa...agora é minha sina andar nessa vida de separar a publicidade do correio, mas ainda não nos roubaram a papeleira. É dar um tempinho à coisa...

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    1. Roubam os autocolantes?! Mas quem? os senhores da publicidade para poderem pôr? Ou alguém interessado em reutilizá-lo? Oh meu Deus, ao que isto chegou! :)

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  3. Não me espanta que roubem a papeleira - dá tanto jeito - a mim roubaram-me o tapete da porta por duas vezes, qualquer um deles do mais vulgar que havia. Isso e a antena do carro, perdi a conta a quantas desapareceram. Sempre achei que era uma característica muito nossa - está ali? ninguém está a ver? então leva-se. Triste, a rapidez com que algumas coisas se colam aos dedos alheios.

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    1. Aí. Aqui deixo (eu e todos) coisas à porta de casa, desde vasos a decorações, pás para a neve, sei lá o que mais, ninguém lhes toca.

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